Etiqueta do Inmetro no pneu: como ler antes de comprar

As três informações da etiqueta do pneu dizem o que o preço da cotação esconde. Veja como ler consumo, frenagem e ruído antes de fechar a compra.

Equipe Cofauto 9 min de leitura
Capa do artigo do Cofauto em fundo roxo da marca com o título 'Etiqueta do Inmetro no pneu' e a linha de apoio sobre as três informações que o preço da cotação não conta.

A cotação de pneus da frota quase sempre termina numa planilha de três colunas: fornecedor, medida e preço. Fecha-se com o mais barato, o borracheiro monta e a conversa acaba ali. Só que o pneu não é uma peça que fica parada esperando quebrar. Ele roda todo dia com o veículo, empurrando o motor a queimar mais ou menos combustível, e é ele que decide onde o caminhão vai parar quando a pista está molhada. Nada disso aparece na coluna do preço — mas está escrito, em três informações, num adesivo colado na banda de rodagem do produto que você acabou de comprar.

Esse adesivo é a ENCE, a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia do Programa Brasileiro de Etiquetagem. Segundo o Inmetro, os pneus destinados a automóveis de passeio, caminhões e ônibus devem trazer a ENCE aposta de forma adesiva sobre a banda de rodagem, de modo que fique visível ao consumidor. A regra vem da Portaria Inmetro nº 379/2021, que consolida o regulamento técnico da qualidade e os requisitos de avaliação da conformidade para pneus novos.

As três informações que a etiqueta é obrigada a mostrar

A ENCE não é um selo genérico de qualidade. Ela responde a três perguntas específicas, cada uma medida em ensaio próprio, com os limites de cada faixa definidos no Anexo C da Portaria nº 379/2021.

Quadro com as três informações da etiqueta ENCE de pneus: resistência ao rolamento na escala A a G, ligada ao consumo de combustível; aderência em pista molhada na escala A a F, ligada à frenagem na chuva; e ruído externo em três escalas.
As três informações da ENCE e o efeito de cada uma na operação da frota.

1. Resistência ao rolamento (escala A a G)

É a energia que o pneu consome só para girar, deformando-se a cada volta. Quanto maior essa resistência, mais o motor precisa trabalhar para manter a mesma velocidade — e mais combustível some do tanque. O Inmetro descreve esse coeficiente numa escala de A até G, em que A é a classe mais favorável. O ensaio segue a norma ISO 28580 ou o Regulamento UN nº 117.

Para frota, essa costuma ser a letra mais cara de ignorar. Pneu é compra pontual; combustível é despesa que se repete todo mês, em cada veículo. Vale registrar, porém, o que a etiqueta não faz: ela classifica o desempenho em faixas, não promete um percentual de economia. Quem quiser o número da própria operação precisa medir consumo antes e depois, com a frota rodando o mesmo tipo de rota.

2. Aderência em pista molhada (escala A a F)

Mede a capacidade de frear em asfalto molhado. Aqui mora um detalhe que quase todo material sobre o assunto erra: a escala da aderência não é a mesma da resistência ao rolamento. O Inmetro descreve o coeficiente de aderência em pista molhada numa escala de A até F — uma letra a menos. Se a cotação que chegou até você fala em "aderência G", alguém copiou a informação errada. Os ensaios seguem as normas ISO 23671 e ISO 15222, ou o Regulamento UN nº 117.

Para operação que roda de madrugada, em rodovia, carregada e sob chuva, essa é a letra que não deveria entrar em negociação de centavos.

3. Ruído externo

O terceiro campo é o nível de pressão sonora, apresentado em três escalas de ruído emitido pelo pneu durante a rolagem, com ensaios conforme as normas ISO 13325 e ISO 10844. Parece o critério menos importante dos três, e para muita operação é mesmo — mas pesa em entrega urbana noturna, em cidade com restrição de ruído e no cansaço de quem passa oito horas dentro da cabine.

O que a etiqueta não diz — e é onde a frota se perde

A pergunta que todo gestor faz na hora da compra é "quantos quilômetros esse pneu aguenta?", e essa é justamente a pergunta que a ENCE não responde. Quem tenta responder é outra marcação, o treadwear, gravado no flanco de parte dos pneus. O Inmetro explica que esse índice varia de 60 a 800, com 100 como valor de referência: um pneu de treadwear 800 deve durar oito vezes mais que um de treadwear 100.

O detalhe importante: a regulamentação brasileira de pneus não adotou o treadwear como critério regulamentar. O motivo, nas palavras do próprio Inmetro, é a falta de reprodutibilidade — o ensaio é feito em circuito de estradas, sem controle de temperatura, pressão ambiente e condições do asfalto. Ou seja: o treadwear serve para comparar dois pneus na mesma prateleira, não para prometer quilometragem no seu contrato.

O Inmetro também lembra que a durabilidade depende de fatores que não estão no produto, e sim na sua operação: carga a que o pneu é submetido, composto de borracha, desenho da banda, perfil, temperatura ambiente, rugosidade da pista, calibragem correta, balanceamento, cambagem e alinhamento. Traduzindo para a rotina: o número real de quilômetros por pneu só sai do histórico da sua própria frota — o mesmo raciocínio de custo por km rodado.

O flanco do pneu: as marcações que a norma exige

Além da etiqueta, a Portaria nº 379/2021 lista as informações que precisam estar marcadas no próprio pneu. Saber lê-las evita dois problemas clássicos: receber uma medida diferente da especificada e aceitar um pneu que passou anos parado no estoque do fornecedor.

  • Marca e denominação registrada do fabricante.
  • Dimensão — largura da seção e diâmetro interno do pneu, podendo incluir a relação nominal de aspecto (a série).
  • Tipo de estrutura — "R" antes do diâmetro do aro indica radial; "-" ou "D", diagonal; "B", diagonal cintada.
  • Índice de velocidade — a velocidade máxima permitida para aquele pneu.
  • Índice de capacidade de carga — o número que define quanto o pneu suporta, conforme o Manual Técnico da ALAPA.
  • Indicadores de desgaste — identificados pela sigla "TWI", por um triângulo ou por uma seta disposta radialmente no pneu.
  • Data e país de fabricação — a data usa quatro algarismos: os dois primeiros indicam a semana, os dois últimos, o ano.

Vale reler a última: 2426 significa a 24ª semana de 2026. É a informação que separa um pneu novo de um pneu que envelheceu na prateleira, e é a mais fácil de conferir na entrega. Os indicadores de desgaste, por sua vez, são a mesma referência usada na fiscalização de banda de rodagem — o assunto do post sobre pneu careca na frota.

Checklist do Cofauto com oito itens para conferir no pneu antes de aceitar a entrega: etiqueta ENCE colada e legível, medida igual à especificada, tipo de estrutura, índice de carga, índice de velocidade, indicador de desgaste, data de fabricação e país de fabricação.
O que conferir no pneu na hora do recebimento, antes de liberar a nota.

Como transformar as letras em política de compra

Ler a etiqueta uma vez não muda nada. O que muda o custo da frota é a compra deixar de ser uma decisão de preço isolada e virar um critério escrito, que qualquer pessoa do administrativo consegue aplicar sem entender de pneu.

  1. Padronize a medida por grupo de veículos. Antes de discutir marca, monte a lista de quais medidas a frota realmente usa. Frota com dez medidas diferentes não consegue negociar volume nem comparar desempenho.
  2. Peça as três informações na cotação. Inclua no pedido de orçamento: medida, índice de carga, índice de velocidade e as classes de resistência ao rolamento, aderência e ruído. Fornecedor sério tem esses dados à mão.
  3. Compare só dentro da mesma medida. Classe de etiqueta de medidas diferentes não se compara. O critério vale entre produtos que cabem no mesmo veículo.
  4. Defina um piso interno por tipo de operação. Sua empresa pode decidir, por exemplo, que veículo de rodovia não recebe pneu abaixo de determinada classe de aderência. Não é exigência legal — é política interna, e por isso precisa estar escrita.
  5. Confira a data de fabricação na entrega. Anote a semana e o ano de cada pneu recebido. É o único momento em que essa checagem é barata.
  6. Registre as classes no cadastro do veículo. A etiqueta é um adesivo: some nos primeiros quilômetros. Se a informação não for anotada na compra, ela se perde e a próxima cotação recomeça do zero.
  7. Meça o resultado depois. Consumo médio e quilometragem por pneu, por grupo de veículos, comparando com o período anterior. Sem isso, a escolha continua sendo baseada em opinião.

Checklist de recebimento

  • A ENCE está colada, legível e na banda de rodagem do produto entregue.
  • A medida bate exatamente com a que foi cotada e com a especificada para o veículo.
  • Os índices de carga e de velocidade atendem à especificação do fabricante do veículo.
  • O tipo de estrutura é o correto (R, D ou B) para a aplicação.
  • A data de fabricação foi lida, anotada e é recente o suficiente para o seu critério.
  • Os indicadores de desgaste (TWI, triângulo ou seta) foram localizados no pneu.
  • A nota fiscal descreve marca, modelo e medida iguais aos do produto físico.
  • As classes da etiqueta foram registradas na ficha do veículo, não só na cotação.

Perguntas frequentes

Perguntas frequentes

A etiqueta some depois que o pneu roda. Como consultar a informação depois?

Registrando as classes no ato da compra — é o caminho mais seguro. O Inmetro também disponibiliza os dados de eficiência energética de pneus novos em formato aberto, no Portal Brasileiro de Dados Abertos, dentro do conjunto do Programa Brasileiro de Etiquetagem.

Pneu classe A é sempre a melhor compra?

É o melhor naquele critério específico. A etiqueta avalia resistência ao rolamento, aderência em pista molhada e ruído — não avalia durabilidade, recapabilidade nem resistência a corte. Um pneu classe A em rolamento pode não ser o mais indicado para uma operação de obra ou de estrada de terra.

Pneu tem prazo de validade?

Ao responder essa pergunta, o Inmetro não fixa um prazo: aponta que a durabilidade depende da carga a que o pneu é submetido e de fatores como composto de borracha, desenho da banda, perfil, temperatura ambiente, rugosidade da pista, calibragem, balanceamento, cambagem e alinhamento. O que a norma exige é a marcação da data de fabricação, em quatro algarismos de semana e ano.

Posso escolher pelo treadwear?

Dá para usar como comparação entre produtos, mas com cautela. A regulamentação brasileira não adotou o treadwear como critério, porque os ensaios são realizados em rodovias, sem controle de temperatura, pressão ambiente e condições do asfalto — não há reprodutibilidade entre medições.

Todo pneu vendido no Brasil precisa da ENCE?

O Inmetro determina que os pneus destinados a automóveis de passeio, caminhões e ônibus tragam a ENCE aposta de forma adesiva sobre a banda de rodagem, visível ao consumidor. A medida regulatória de pneus novos está na Portaria Inmetro nº 379/2021 e nas portarias complementares.

Fontes

Conteúdo informativo, atualizado em 05/09/2026. Regras de trânsito e valores mudam por estado e por resolução — confirme sempre no órgão oficial antes de decidir.

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